Uma ideia na cabeça e um site de crowdfunding à mão para levantar fundos e conseguir realizá-la. O Barraco #55, um projeto de turismo cultural que duas holandesas, um colombiano e um brasileiro pretendem realizar no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, agora só depende disso: dinheiro. Para levantar o restante da verba que precisam, eles realizam este fim de semana um festival beneficente em Amsterdã.
A holandesa Ellen Sluis, de 26 anos, fazia mestrado em Estudos de Conflitos e Direitos Humanos em Utrecht quando decidiu realizar a pesquisa para sua monografia no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, e acompanhar o processo pós-pacificação.
“No início eu não fiquei na favela, mas sentia que ir até lá todos os dias e não morar lá, não experienciar a vida do dia a dia - ir à padaria, ir às festas à noite - fazia falta para entender realmente a realidade de lá”, conta Ellen. “Aí resolvi me mudar pra lá e fui morar na casa da mãe de um amigo meu. E foi lindo, foi muito bom. Mas muito difícil também, porque você sente a distância, não somente física, mas também ideológica, a divisão entre a favela e o resto da cidade.”
Ellen diz que aprendeu muito nos quatro meses em que esteve na favela. “A mentalidade dos moradores é algo incrível. Eles são muito criativos, otimistas. Com todas as dificuldades eles conseguiram criar uma estrutura totalmente alternativa, paralela à sociedade brasileira, e eu acho isso muito interessante”, comenta a holandesa, que agora, ao lado dos colegas Fei An Tjan, Rodrigo Saavedra e Eddugrau começa a tirar do papel o projeto para um centro cultural e turístico no Complexo do Alemão, batizado de Barraco #55.
Albergue cultural
“Depois da minha pesquisa no Complexo do Alemão eu não queria voltar, porque achei muito intensa a situação lá. Eu precisava de distância. Mas comecei a conversar com o Eddugrau, que vive lá e é nosso parceiro, e ele já tinha este sonho de começar um projeto de turismo que beneficie a comunidade, não só economicamente, mas também socialmente.”
A ideia do grupo é transformar uma casa na favela num albergue onde também sejam organizados workshops de música, dança e artes em geral, ora pelos moradores locais para os turistas, ora pelos turistas para os moradores locais.
“É uma alternativa ao ‘favela tour’, que já acontece na Rocinha, por exemplo, no qual os turistas vão de Jeep na favela e podem tirar fotos em alguns lugares, em outros não - o que na verdade só reforça a ideia de que a favela é perigosa, de que você não pode entrar sozinho, que os traficantes ainda têm poder, que tem muita violência e muita miséria também. Com este projeto a gente quer mostrar que a favela tem coisas muito bonitas, que a gente pode aprender muita coisa lá como estrangeiro, ou como turista brasileiro. Queremos focar na troca de cultura, na troca de conhecimento, e realmente fazer coisas juntos.”
Leilão
A casa para abrigar o albergue cultural já foi escolhida, mas ainda falta arrecadar mais verbas para concretizar o projeto. Um terço do dinheiro necessário foi levantado por meio de crowdfunding e outras doações, e neste final de semana serão organizados um festival e um leilão em Amsterdã para levantar mais fundos. Além de objetos de arte, quem quiser participar do leilão também pode comprar, entre outras curiosidades, um encontro romântico ou os serviços de um rapaz para lavar a louça do jantar.
“A gente precisa de financiamento agora para uma reforma na casa, para comprar camas, equipamento de cozinha e restaurante. Depois, as visitas dos turistas vão gerar uma renda e esta renda a gente vai investir nos projetos sociais e culturais no centro. Todo o lucro será investido novamente na comunidade”, enfatiza Ellen.
Quem quiser contribuir com o Barraco #55 pode participar do leilão online ou fazer doações pelo site holandês de crowdfunding 1procentclub. O festival acontece neste sábado, 21 de abril, no espaço cultural VLLA (Willem Roelofsstraat 5-9, Amsterdã), das 14h às 3h da manhã.