No leste da República Democrática do Congo (RDC) muitos estão fugindo da violência entre as tropas do governo e as forças rebeldes de Ntaganda. Homens, mulheres, jovens e idosos estão se desolcando. Todos eles com o mesmo olhar de medo.
Colchões em suas cabeças, crianças cansadas em suas costas, acompanhados de cabras e portando alguns potes na mão. Esse é apenas mais um retrato da população de Sake, a 27 quilômetros de Goma, no leste da RDC. Até agora, centenas de pessoas estão caminhando rumo à Kivu do Norte, a maior cidade e capital da região. Outros buscam refúgio cruzando à fronteira, em Ruanda.
A maioria vindos do território de Masisi, buscam escapar dos confrontos contínuos entre as Forças Armadas da República Democrática do Congo (FARDC) e os homens do general Bosco Ntaganda. Os enfrentamentos começaram no mês passado, quando os soldados congoleses pertencentes ao acampamento de Ntaganda desertaram. Pouco depois, o presidente da RDC, Joseph Kabila, expressou a intenção de entregar Ntaganda ao Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra.
Vítimas civis
Medo, desespero e fome fazem parte da realidade diária dos refugiados.
Shashire, que é mãe de cinco crianças, testemunha: “quando os combates começaram, só pudemos salvar nossas crianças. Mas vamos morrer de fome aqui, não recebemos nenhuma comida, nenhuma assistência das autoridades, é muito difícil para nós e nossos filhos”.
Migihaba, um homem de 50 anos, recorda o que o forçou a deslocar-se: “Ouvimos diversos disparos de balas e mesmo bombas explodindo. E então eles obrigaram nossos jovens a se integrar em seus exércitos. É por isso que tivemos que fugir”.
Um conflito de origens desconhecidas
Os soldados aos quais Migihaba se refere fazem parte do antigo Congresso Nacional pela Defesa do Povo (CNDP), grupo rebelde. Ntaganda serviu ao lado do líder Laurent Nkunda, que foi preso em Ruanda em 2009. Naquele ano, o CNDP foi integrado ao exército congolês e Ntaganda foi promovido à general.
De acordo com o chefe da comunidade de Sake, Lawi Katahanwa Mbira, o exército dividido obrigou as pessoas a fugirem. “Nós não sabíamos o motivo do combate porque, em princípio, eles formam um único exército. O problema é que não conseguimos ver as diferenças entre o CNDP e as FARDC, eles usam o mesmo uniforme. A população é simplesmente vítima de uma guerra cujas origens são desconhecidas”.
Ajuda zero
As batalhas afligem a população local. Nenhuma oferta de ajuda foi relatada. “Não recebemos nenhuma ajuda do governo. Precisamos de água e comida. Dormimos ao relento, no chão”, diz Shashire.
Ainda mais preocupantes são os rumores que os rebeldes estão avançando. Em 1º de maio, tiros dados por um militar embriagado na praça de Sake incitou retaliações de soldados nas colinas que circundam as cidades. Os moradores entraram em pânico.
E agora?
Fontes militares da unidade do comando especial em Mubambiro, há dois quilômetros de Sake, acreditam que as FARDC tomarão o controle da situação em breve porque o CNDP desertou do exército nacional. Em uma nota para a imprensa, o chanceler do CNDP, Edward Bangashusu pedia às autoridades congolesas para negociar um fim às hostilidades.
Enquanto isso, a população teme que a situação piore. Ninguém quer reviver a guerra de 2008. “Temos que parar a guerra porque não queremos morrer. Queremos paz”, diz o chefe da comunidade de Sake, Mbira.