Uma das comunidades indígenas mais antigas do Peru está no meio do fogo cruzado entre os remanescentes do Sendero Luminoso e das forças de ordem. Se repete a história do conflito armado dos anos 1980.
A sequela dos trágicos incidentes gerados pelas ações do Sendero Luminoso na província de La Convención (na região de Cusco) foi de índole variada. Desde a morte de membros da Polícia Nacional e das Forças Armadas devido a emboscadas ou ação de minas terrestres caseiras, até a renúncia e posterior ajuda dos ministros do Interior e da Defesa.
No entanto, pouco se diz sobre os impactos que as ações do conflito armado causaram nos povos indígenas que vivem próximo aos vales dos rios Apurímac e Ene, bem como da província de La Convención, de onde vêm operando as colunas senderistas associadas ao narcotráfico.
Esta semana, pôde-se conhecer as sequelas das recentes atividades armadas senderistas e da correspondente contraofensiva do exército nos mashinguengua, uma etnia amazônica que vive em áreas próximas de onde se explora as jazidas de gás de Camisea, fonte de energia que vem sendo importante para o Peru a fim de gerar uma mudança nas fontes não renováveis de energia.
Esta área é usada pelo Sendero Luminoso como região de trânsito para suas operações. Os membros desta organização não toleram a existência de investimento privado, em troca de que suas atividades armadas e de custódia do tráfico de drogas sejam toleradas.
Na medida em que a área de Alto Lagunas está cheia de minas terrestres caseiras colocadas por parte da facção senderista que atua em La Convención, 110 membros desta etnia foram levados para um abrigo do Conselho Mashinguenga do Rio Urubamba, onde vivem em condições precárias. Outros estão desaparecidos, segundo o jornalista especialista em narcoterrorismo Pedro Yaranga.
Eles se sentem atingidos, tanto pelo deslocamento forçado a que foram submetidos pelas ações armadas, como pelo recrutamento de menores de idade realizado pelo Sendero Luminoso na área. Ambas as condutas foram registradas em outros momentos do conflito armado interno que assolou o país entre 1980 e 2000.
A violência dos 1980
O deslocamento forçado foi uma conduta que, no caso do Sendero Luminoso, a Comissão da Verdade e Reconciliação (CVR) descobriu que tinha como fim contar com uma massa cativa que pudesse satisfazer suas necessidades logísticas.
O caso mais dramático foi o do povo ashaninka, dizimado em tal magnitude que a própria CVR recomendou que se iniciassem investigações contra a cúpula senderista pelo suposto crime de genocídio.
De acordo com o Informe Final da CVR, o Sendero Luminoso recrutou os menores de idade para substituir aqueles que viessem a cair em combate. A maioria dos recrutamentos foram realizados mediante coerção, truques e violência, incluindo ameaças a seus familiares. A CVR documentou a existência de “meninos pioneiros”, que eram encarregados de tarefas como vigilância, envio de mensagens, espionagem ou traslado de munições. A partir dos 12 anos, os menores de idade recrutados pelo Sendero Luminoso eram treinados no manejo de armas.
De acordo com os analistas em temas de segurança, será vital para derrotar esses remanescentes do terrorismo que as Forças Armadas e policiais articulem uma aliança com os cidadãos que vivem na área, entre eles, os membros da etnia mashinguenga. Isso implica uma melhora nos serviços oferecidos pelo Estado, que não passam somente por temas de segurança, mas também por integrar melhor estes peruanos ao resto da sociedade, o que também inclui o respeito a sua etnia e costumes.