Para tudo há uma primeira vez. No caso de Ruanda, existem muitas estreias desde 1994. E 2012 é o primeiro ano que um museu de artes no país mostra o trabalho de artistas internacionais.
No mês passado, estreou a "Exposição Internacional de Arte” no Museu de Arte Rwesero, em Nyanza, que conta com as coleções do fotórgrafo sul-africano renomado mundialmente Pieter Hugo e da fotógrafa holandês Andrea Stultiens. O artista mixed-media Collin Sekajugo também contribui em uma parte pequena mas significativa na exposição.
"Áreas Grávidas"
A Coleção de Hugo mostra imagens do fotógrafo que foram feitas dez anos após o massacre que matou cerca de 800.000 pessoas em Ruanda. A série chama-se 'Vestígios do genocídio' e inclui fotos referidas pelo museu como "áreas grávidas" - locais férteis com as lembranças concretas de genocídio, como bloqueios de estradas que já foram estabelecidos ou onde pessoas foram assassinadas.
A guia do museu de Ruanda, Fiona Umutoni, diz que se arrepia quando passa pelas fotos. "E o mesmo acontece com os visitantes", acrescenta ela.
Apesar de não abordar diretamente o genocídio de Ruanda, o trabalho de Stultiens retrata a vida em um país conturbado. Intitulada "O arquivo Kaddu Wasswa', a coleção é um mix de fotos, vídeos e memórias pessoais de um idoso que Stultiens conheceu em Uganda. Impressionada pela forma como o homem havia documentado tudo em sua vida a partir dos doze anos, ela tirou centenas de fotos do arquivo dele e visitou os lugares que ele havia documentado.
Acontecimentos
"A inspiração para que os ruandeses documentem os acontecimentos em suas vidas". É assim que Sekajugo interpreta as fotos Stultiens. De acordo com Sekajugo, que é descendente de ruandeses e ugandeses, "mesmo que este homem seja ugandês, os documentos mostram a história de um país conturbado. É relevante para todos nessa região. "
Fotos de esculturas de Sekajugo são exibidas ao lado das fotos de Hugo, embora uma de suas peças também esteja exposta no museu. É a de um avestruz querendo correr para a frente, mas que tem os pés atados ao chão.
"A mostra é muito importante para mim como artista e para Ruanda como um país", diz ele. "Isso abre o caminho para o envolvimento de outros artistas em Ruanda para que alcancem um nível superior. E é importante em termos de como o exterior olha para nós. "
Museu como uma plataforma
Quando a curadora do Museu de Artes Rwesero, Lia Gieling, veio pela primeira vez a Ruanda, há mais de dois anos, ela ficou impressionada com a arte tradicional do país. Mas holandesa não encontrou um museu contemporâneo adequado para uma exposição.
"São sempre os mesmos quadros de mercados e vacas. E isso não é surpreendente - os artistas locais não se desafiam, não há escolas ou academias de artes aqui para ensinar-lhes habilidades ", diz Gieling.
De volta à Holanda, Gieling trabalhou por vários anos com arte. Quando ela sugeriu algumas mudanças para melhorar a qualidade de Rwesero, foi dada a ela a oportunidade de ser curadora.
Atualmente, um dos objetivos do museu é ajudar a explorar o lado criativo dos ruandeses. "Com o museu, queremos criar uma plataforma, bem como ensinar jovens artistas e envolvê-los no desenvolvimento das artes aqui", diz ela.
Além disso, as artes podem desempenhar um papel importante no processo de cicatrização numa Ruanda pós-genocídio. Isso é o que acredita o diretor-geral do Instituto do Museu Nacional de Ruanda, Alphonse Umuliisa.
Umuliisa também aponta que "outra parte muito importante da arte é que ela pode reduzir a pobreza. Ela traz oportunidades ilimitadas. "
"Como uma criança"
O sonho de Gieling é continuar com exposições de escopo global. Ela percebe que será um desafio, pois há poucos fundos para o museu. O trabalho de Hugo, por exemplo, só pôde ser exibido porque ele doou as fotos para o museu.
Mas Umuliisa não vê nisso um problema. "Nós vamos buscar cada fundo que esteja disponível neste país", diz ele.
Sekajuro é mais cético: "A arte em Ruanda é como uma criança. Está em uma fase muito precoce agora. Você tem que levá-la pela mão, para deixá-la crescer. Mas com a falta de financiamento vai ser difícil ter artistas internacionais aqui ou para educar os artistas locais. E isso dificulta o crescimento dos artistas de Ruanda. "
A próxima exibição do Museu de Artes de Rwesero é incerta, bem como o futuro das artes em Ruanda. Mas há a esperança de que o bebê possa crescer e prosperar.
A "Exposição Internacional de Arte" fica em cartaz até 31 de agosto de 2012.