A recessão econômica da China também tem consequências para países na África, Oriente Médio e para a Indonésia. Eles têm que se acostumar aos preços mais baixos de matérias primas, alerta o economista, político e especialista em China Jonathan Holslag. Ele também acha preocupante o cenário de uma nova guerra fria por conta das tensões entre China e EUA.
A economia chinesa, que até pouco tempo crescia mais e mais a cada ano, está desacelerando. O crescimento ainda é impressionante: 8,1% no primeiro trimestre deste ano. Mas as consequências da recessão deverão ser sentidas pelos parceiros comerciais, sobretudo na África, acredita Holslag, que é ligado à Universidade de Bruxelas.
Baixa nos preços de matérias primas
“A China já não pode investir tanto em sua infraestrutura e a demanda interna está diminuindo. Uma consequência disso é uma baixa no preços de matérias primas. Já estamos vendo isso com o preço de alguns minerais. Também no comércio de alimentos. A China, como principal importador destas mercadorias, determina o preço. Países na África, América Latina e também a Indonésia ficaram viciados nos altos preços de matérias primas”, diz Holslag. “Eles terão dificuldade de adaptação. A situação se parece com a dos anos ’90, quando também houve uma baixa nos preços de matérias primas que trouxe problemas a governos em países em desenvolvimento e causou instabilidade em grande escala. Mas a longo prazo, os preços de matérias primas devem subir, porque a demanda continuará a crescer.”
Tensões geopolíticas
A questão é saber quão duradouras serão as consequências desta recessão. Holslag se preocupa principalmente com a crescente tensão entre China e Estados Unidos sobre a influência norte-americana no Leste asiático. Recentemente, os EUA decidiram estacionar mais navios da marinha norte-americana na região. Pequim, cada vez mais autoconfiante, se põe em posição belicosa em relação aos norte-americanos.
Segundo o especialista belga, estas tensões geopolíticas no Leste asiático também podem levar a uma nova guerra fria na África, agora com a China como adversário dos EUA. “Sei que para muitos europeus é difícil imaginar um cenário assim, mas acredito que é cada vez mais provável.”
“Não há nenhuma solução para as tensões no Oceano Pacífico. O debate sobre isso no congresso norte-americano e no Partido Comunista chinês está endurecendo. Com isso, o espaço de manobra para os governos chegarem a um acordo fica menor. E o número de conflitos comerciais entre a China e os EUA está aumentando. Pequim está relutante em se aproximar do Ocidente, também porque dentro da própria China as tensões sócio-econômicas crescem rapidamente.”
Portos africanos
A China poderia consolidar seus interesses comerciais na África com o estreitamento de relações políticas e parcerias militares, acredita Holslag. “Percebe-se que a força naval chinesa visita cada vez mais os portos africanos e a que a China dá ajuda militar a países onde tem interesses econômicos. Se as tensões continuarem aumentando, elas com certeza vão chegar ao continente africano.”
“A China e os Estados Unidos irão então tomar posições opostas em determinados conflitos, como na rivalidade entre Sudão e Sudão do Sul.” O futuro de países como Egito e Argélia, segundo Holslag, pode se tornar um pomo da discórdia. “No caso de uma guerra civil ou instabilidade, por exemplo, num país do Oeste africano, existe o perigo de uma intervenção militar descoordenada de ambos os lados.”
Hugo Chávez
Mas de acordo com Holslag, uma guerra fria assim não aconteceria da noite para o dia na África ou mesmo na América Latina, onde a China é menos reticente em relação aos avanços do presidente venezuelano Hugo Chávez. Mas pode ser o resultado de um processo gradual.
“O importante é que os EUA e os chineses cheguem a um acordo sobre a esfera de influência no Leste asiático. Os chineses querem o fim da liderança militar e diplomática dos EUA na região. Mas os norte-americanos se recusam a ceder sua hegemonia.”