A Rádio Nederland muda de rumos e seguirá adiante com menos recursos. Será uma organização bem menor, cujo enfoque será a liberdade de expressão (Free Speech). Da antiga à nova RNW: uma volta pelas redações que deixarão de existir e outras que deverão se adaptar às novas circunstâncias.
Parte 4: A redação em espanhol
Durante a ditadura militar, nos anos 1970 e 1980, a Radio Nederland era para muitos na América Latina a conexão com o mundo. “Naquele tempo, nós não sabíamos exatamente como era o nosso impacto”, diz Wil Jansen, chefe do departamento Latino-Americano. “Mas tornou-se claro quando as ditaduras acabaram e surgiu a democracia.”
“Todas as camadas da sociedade parecem ter valorizado nosso trabalho. O atual presidente da Bolívia, Evo Morales, que estava preso nos anos 1970, nos contou que a Radio Nederland era a única emissora confiável que ele podia ouvir na prisão”.
Presos políticos
A primeira transmissão em espanhol aconteceram logo depois da criação da Radio Nederland, em 1947. A princípio, os programas eram principalmente informativos e culturais, mas no período de ditaduras, a programação tornou-se cada vez mais sobre política. A Radio Nederland preenchia a necessidade de informações que países sem liberdade de imprensa possuíam.
Nos anos 1970, esse papel foi reforçado ainda mais pelo grande interesse que havia na própria Holanda, sob a influência dos exilados que viviam no exterior. Um deles é José Zepeda, um ex-preso político que se refugiou da ditadura do Chile em 1976. No mesmo ano ele passou a trabalhar para a Radio Nederland e em 1994 tornou-se o chefe da redação em espanhol.
“Com sua enorme rede de contatos e prestígio, foi uma figura inestimável para o crescimento do departamento”, diz Wim Jansen.
Audiência
O impacto na América Latina é possível de ser medido em números: um milhão de ouvintes através de ondas curtas, oito milhões através de emissoras parceiras e mensalmente 200 mil visitantes na página na internet, 110 mil downloads de áudios e 75 mil visualizações dos vídeos. Os ouvintes sintonizam programas populares como La Matinal, Cartas e a versão espanhola da Europarada.
A redação se orgulha da transmissão ao vivo do casamento do príncipe herdeiro, Willem Alexander, com Máxima Zorreguieta, em 2002. O contexto era a proibição do pai dela à cerimônia por ter sido secretário de estado durante a ditadura na Argentina. A transmissão também contou com a participação de um correspondente em Buenos Aires, que cobria um protesto das Mães da Praça de Maio, que pedia esclarecimento sobre seus filhos desaparecidos.
Novos rumos
O departamento será reduzido e mudam os rumos jornalísticos. Isso traz profundas consequências para o conteúdo dos programas (promover a liberdade de expressão), o público-alvo (jovens entre 15 e 35 anos) e os países para os quais a Radio Nederland se dirigirá (Cuba, Venezuela e México).
Da América Latina, chegaram milhares de emails e cartas, principalmente dos países que não mais receberão as produções da Radio Nederland. Um grupo de intelectuais escreveu uma carta para o governo em Haia e à direção da Radio Nederland para rever a decisão. Ouvintes de Venezuela e Colômbia entregaram petições às embaixadas holandesas em seus países.
Mas todas as iniciativas não fizeram com que a decisão já tomada mudasse. Quem vai desempenhar o papel da Radio Nederland no futuro? “A Radio França Internacional (FRI) e a Deutsche Welle já estão na região, mas são relativamente pequenas”, diz Wim Jansen.
“Voice of America nunca conseguiu conquistar muito espaço por sempre ter sido visto com desconfiança. A BBC está voltando ao continente. Mas os possíveis vencedores são os chineses: um novo poder no mundo da mídia. Eles já colocaram os pés no continente latino-americano. As transmissões não possuem inspiração política, mas estão relacionadas com cultura e temas abordados em profundidade.